segunda-feira, 29 de junho de 2009

Louças feitas de barro geram renda no interior do Amapá



Um projeto fortalece e profissionaliza a tradição centenária de produção de louças de barro no estado do Amapá. As artesãs estudam design e complementam a renda das famílias com o trabalho.

A produção de louças de barro em Carmo do Maruanum já existia. Há várias gerações, as mulheres deste distrito rural de Macapá fazem panelas e tijelas para o consumo próprio. A novidade é que as louceiras buscaram o apoio do Sebrae do Amapá para transformar o artesanato em um negócio.

As artesãs saem de casa bem cedo para buscar barro cantando: “Eu nasci no Maranaum / Me criei no Maranaum / Eu não nego a minha natureza / Que Deus me deu”.

O caminho é vencido com alegria. O artesanato é mais do que um meio de vida. É um ritual. Inclui canções regionais e muitas superstições. Para tirar o barro, elas só usam as mãos ou pedaços de madeira. Pás nem pensar. É proibido colocar ferro, metal ou alumínio em contato com a terra.

“Meus avós, meus tios mais velhos, diziam que se a gente usar o ferro o barro some”, conta a artesã Maria Silva Barbosa.

Depois de cavar o buraco e de retirar o barro, cada artesã faz uma minicaneca ou uma panelinha. As ofertas são para a mãe do barro ou avó do barro. Cada uma chama de um jeito. Segundo a tradição, a mãe do barro é uma deusa que protege a produção das louças de Maraunaum.

“A gente faz essa peça e oferece para ela, que é para fazer a peça queimar em paz”, diz a artesã Castorina Silva.

O ritual termina quando as oferendas são enterradas no mesmo local onde o barro foi retirado. No momento de trocar a fé pela força, é hora de amassar o barro e dar forma ao material. O Sebrae ajudou as artesãs a melhorar as peças.

Mesmo com a tradição centenária na produção de louças de barro, o produto pronto não era perfeito. As tampas não encaixavam nas panelas, e as alças laterais eram pequenas, difíceis de segurar. Tudo isso mudou nos últimos anos. Elas estudaram design e acabamento. Hoje, apesar de tudo continuar sendo feito manualmente, existe uma padronização.

Com o apoio do Sebrae, as louceiras criaram uma associação. Antes era grande a concorrência entre elas e cada uma cobrava um preço diferente.

“Houve um trabalho em formação de preço para que pudesse ser igual prá para todas, porque estava gerando antes uma competitividade interna entre elas. Acaba um preço não muito adequado, e elas perdiam com isso. Não havia um ganho”, lembra Josseli Pantoja, representante do Sebrae–AP.

Hoje as artesãs trabalham e vendem as peças juntas. Na preparação da louça, um pó com as cinzas do Caripé, uma planta da região, é misturado ao barro. A mistura funciona como uma cola.
“Tem que amassar bem amassadinho, misturar bem misturadinho”, explica a artesã Raimunda Costa da Silva.

A louça queima por oito horas. Depois, as artesãs passam uma resina, a jutaiçica. “É para conservar o barro para poder ficar a louça bem forte”, comenta a artesã Deusarina Silva.
As panelas de barro são ótimas para o preparo de peixes e de feijão. “Eu só faço feijão nessa panela, na minha panela pretinha”, aponta a artesã Castorina Silva.

Cada artesã produz até 15 peças por mês. “Tem semana que eu faço até R$ 100”, calcula Marciana Nonata Dias, presidente da associação.

“Ainda é uma produção pequena, ainda é um complemento na renda dessa comunidade dessas louceiras, mas a gente está voltando ações para que consiga escoar essa mercadoria e para que elas possam ter futuramente uma renda maior”, explica Josseli Pantoja, representante do Sebrae–AP.

O Sebrae já procura novos clientes para as louceiras. As louças são vendidas em Macapá, na Casa do Artesão. Uma preocupação das louceiras é garantir que a tradição sobreviva por muitos anos. A artesã Raimunda Ramos, que aprendeu o ofício com a avó, hoje ensina a neta.

“Eu quero que, quando eu faltar deste mundo, ela fique. Aí ela faz que nem eu faço”, disse Raimunda.

“Vou assumir essa missão, se Deus quiser”, respondeu a neta.

Fonte: PEGN

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